terça-feira, 22 de abril de 2014

Os dons espirituais à luz das Escrituras (3)


Dons espirituais como manifestações — ao contrário dos dons ministeriais — não são residentes, e sim esporádicos, momentâneos. Eles, que estão à disposição de todos os crentes batizados com o Espírito Santo, podem ser agrupados, para estudo, em três categorias.

A primeira categoria é a dos dons de elocução ou verbais: profecia, variedade de línguas e interpretação das línguas. Por meio da profecia, o crente usado pelo Espírito transmite uma mensagem divina, momentânea e sobrenatural, para a igreja (1 Co 14.4,5,22). Pela variedade de línguas, o salvo apresenta à igreja uma mensagem divina, sobrenatural, em línguas que ele jamais estudou ou aprendeu. Tal mensagem precisa de interpretação, a menos que o Senhor queira falar com pessoas em suas próprias línguas, como ocorreu no dia de Pentecostes (At 2.7-13). E, mediante a interpretação das línguas, os salvos são capacitados, sobrenaturalmente, a interpretarem as tais línguas desconhecidas — isto é, estranhas a quem as pronuncia.

Não se deve confundir as línguas como evidência inicial do batismo com o Espírito Santo com o dom de variedade de línguas. No Novo Testamento, as línguas dadas pelo Espírito Santo são apresentadas com quatro finalidades distintas. Primeiro, como evidência inicial do batismo com o Espírito Santo (At 2.1-8; 10.44-46; 19.6; 9.18; 1 Co 14.18). Segundo, as línguas são dadas pelo Consolador para edificação do próprio crente que as pronuncia (1 Co 14.4). Terceiro, elas são úteis para a oração em espírito ou “pelo Espírito [gr. pneumati]” (1 Co 14.2,14-16; Ef 6.18; Rm 8.26). E, quarto, há línguas que contêm uma mensagem profética, isto é, o dom de variedade de línguas. Quando alguém é usado pelo Espírito com esse dom, dirige-se à igreja em línguas estranhas (1 Co 12.29,30). Contudo, se não houver interpretação, o tal deve se calar (1 Co 14.5,13,27,28).

Na segunda categoria de dons como manifestações momentâneas estão os dons de inspiração ou de saber. A palavra da sabedoria não consiste em sabedoria, em si, mas em um modo sábio de falar. Trata-se de uma capacidade sobrenatural dada pelo Espírito em várias circunstâncias. A palavra da ciência é um dom ligado ao ministério do ensino, uma capacidade sobrenatural que leva o crente a conhecer as profundezas e os mistérios de Deus (cf. 1 Co 2.9,10). O discernimento dos espíritos, por sua vez, é a capacidade sobrenatural para discernir a natureza, o caráter e a origem dos espíritos (1 Jo 4.1). O termo original denota pluralidade: “discernimentos”.

É importante observar que a palavra da sabedoria não resulta de qualquer esforço humano; trata-se de um dom de Deus, uma manifestação de sabedoria sobrenatural, pelo Espírito. Na prática, é uma habilidade pela qual se aplica o conhecimento, sendo necessário para o governo da igreja, o pastoreio, a administração, a liderança, etc. (1 Co 2.4-7; Gn 41.38,39; Êx 4.12,15; Dt 34.9; 1 Rs 3.8; 4.29,30; At 4.13; 6.6,10; 1 Co 2.13; Lc 12.11,12). Já a palavra da ciência é um dom pelo qual se manifesta a ciência (ou o conhecimento) sobrenatural, pelo Espírito Santo, possibilitando o conhecimento de fatos, de causas, de ensinamentos, etc. (Êx 31.3; Dn 1.4; 1 Rs 7.14; At 20.23). Quanto ao discernimento de espíritos, trata-se de um dom de saber, de maneira sobrenatural, pelo Espírito, por meio do qual a igreja é protegida de todo engano do Inimigo e dos homens (At 16.7 com 1 Ts 2.16,17; 1 Tm 4.1; Tt 1.10).

Por meio dos aludidos dons de saber, pode-se discernir: a fonte de inspiração, que pode ser divina (At 15.32; 1 Co 14.3), humana (Ez 13.2,3) ou diabólica (1 Rs 22.19-24; Jr 23.13; At 16.17,18; Ap 2.20-24); os espíritos, dos quais provêm falsas doutrinas e fenômenos que geram confusão (1 Jo 4.1; At 16.16-18; 2 Co 11.4; Gl 1.8; 1 Tm 4.1; 2 Ts 2.9); confissões falsas (At 5.1-11); trapaças (2 Rs 5.26,27); intenções (At 8.18-24), etc.

A terceira categoria é a dos dons de poder: fé, operação de maravilhas e dons de curar. Pelo dom da fé, o crente é capacitado, sobrenaturalmente, a crer em Deus. Já a operação de maravilhas é a capacidade sobrenatural para a realização de atos que vão além da capacidade humana. Por meio dos dons de curar, o Senhor cura enfermos e doentes. Os dons de poder são operações extraordinárias realizadas pelo Espírito Santo. O Senhor cura e faz prodígios, hoje, pois não mudou (Hb 13.8).

Somente o Espírito de Deus faz milagres, de fato (Êx 3.20; 7.3,4; Jl 2.30; Hb 2.4), e com as seguintes finalidades: autenticar, confirmar e comprovar a pregação do evangelho (Mc 16.15-20; Dt 29.3; Hc 2.4); manifestar a glória do Senhor e levar o povo a crer mais e mais em Jesus, dando cumprimento à Palavra profética (Jo 2.11; Mt 8.17; Êx 8.16-19; Jo 9.1-25; At 3.1-16; 9.36-43; 13.6-12; 14.8-13); desfazer as obras do Diabo (1 Jo 3.8; Lc 13.16; At 10.38); e honrar os verdadeiros servos de Deus (Nm 16.28-32; 1 Rs 17.22; 18.38; 2 Rs 6.5).

Ciro Sanches Zibordi

terça-feira, 15 de abril de 2014

Os dons espirituais à luz das Escrituras (2)

Como afirmei no artigo anterior, há diferença entre os dons do Espírito como manifestações esporádicas e os dons ministeriais. Estes não dependem, necessariamente, do batismo com o Espírito. As ministrações momentâneas e sobrenaturais do Espírito para a edificação da igreja só vêm sobre quem já recebeu o revestimento de poder, o batismo com o Espírito (At 2.1-4; 10.44-47; 19.1-6, etc.).

Apolo era um pregador — ele tinha o ministério, o dom ministerial, de pregador da Palavra, assim como Paulo (1 Tm 2.7) —, porém não era batizado com o Espírito, ao contrário do mencionado apóstolo (cf. At 18.24-19.6). Há vários ministros, pertencentes a denominações evangélicas não-pentecostais, que, à semelhança de Apolo, foram chamados por Deus, desempenham um ministério, a despeito de não conhecerem o batismo com o Espírito Santo.

Os dons espirituais como manifestações momentâneas, esporádicas, objeto deste artigo, estão à disposição de todos os salvos batizados com o Espírito. Entretanto, tais manifestações ou ministrações do Espírito não devem ser confundidas com o fruto do Espírito. Na verdade, os dons e o fruto se completam.

Neste segundo artigo da série sobre os dons espirituais, conheceremos as principais diferenças entre as aludidas ministrações espirituais momentâneas e o fruto do Espírito Santo no que tange a: quantidade, forma de recebimento, origem, forma de manifestação, duração, momento do recebimento, qualidade, finalidade e importância.

1. Quanto à quantidade. Os dons são muitos, e não apenas nove, como muitos pensam. Segundo a Bíblia, há diversidade de dons, ministérios e operações (1 Co 12.6-11,28; etc.). O fruto do Espírito também não deve ser quantificado. Quem afirma que são apenas nove os elementos formadores do fruto toma como base apenas Gálatas 5.22. Mas há várias outras passagens que tratam dessa doutrina paracletológica (Ef 5.9; Cl 3; 1 Pe 5.5; 2 Pe 1.5-9, etc.).

2. Quanto à forma de recebimento. Os dons são repartidos para a igreja, coletivamente, para edificação dela. O fruto do Espírito — que não deve ser reduzido a uma lista de virtudes, haja vista tratar-se do Espírito Santo agindo na vida do crente, a fim de mudar o seu interior, o seu caráter — é produzido na vida de cada servo do Senhor que dá lugar ao Consolador.

3. Quanto à origem. Os dons espirituais vêm do alto sobre a igreja. O fruto tem origem no interior de cada crente espiritual.

4. Quanto à forma de manifestação. Os dons vêm sobre os crentes, conferindo-lhes unção poderosa (capacitação) para pensar, interpretar, discernir, pregar, orar, ajudar, etc. O fruto manifesta-se em cada crente de dentro para fora, através de virtudes como amor, alegria, paz, humildade, etc.

5. Quanto à duração. Os dons como manifestações — e não como ministérios, repito — são momentâneos. O fruto permanece na vida do crente. Mas precisa amadurecer a cada dia.

6. Quanto ao momento do recebimento. Os dons espirituais manifestam-se na vida dos servos do Senhor a partir do batismo com o Espírito Santo, como vemos em Atos caps. 2, 10 e 19, especialmente. “O batismo é também um meio para a outorga por Deus dos dons espirituais — 'falavam línguas e profetizavam'” (GILBERTO, Antonio. Verdades Pentecostais, CPAD, p.64). Já o fruto manifesta-se no crente a partir da sua conversão (Ef 1.13,14). O fruto, portanto, como já disse, é o Espírito Santo agindo na vida do crente, a partir do primeiro momento de sua salvação, para moldar o seu caráter (Gl 5.22; 2 Pe 1.5-9, etc.).

7. Quanto à qualidade. Os dons espirituais são perfeitos, embora muitas pessoas façam mau uso deles. Já o fruto precisa amadurecer. Este amadurecimento do fruto produzido no crente pelo Espírito ocorre gradativamente, de acordo com a disposição do coração do salvo. Trata-se do aperfeiçoamento espiritual (2 Tm 3.16,17; Ef 4.11-15).

8. Quanto à finalidade. Os dons são manifestações para edificação da igreja. O fruto do Espírito tem como finalidade o desenvolvimento do caráter de cada crente. A igreja de Corinto era pentecostal (1 Co 1.7; caps. 12-14). Todos os dons, ministérios e operações divinos tinham lugar ali (1 Co 12.4-6). Contudo, ela estava envolvida em diversos problemas (1 Co 1.10; 6.1-11; 11.18), pecados morais graves (1 Co 5), além da desordem no culto (1 Co 11.17-19).

Os coríntios eram imaturos e carnais (1 Co 3.1-4).Se dermos ênfase apenas aos dons como manifestações esporádicas, em detrimento do fruto do Espírito, males ocorrerão na igreja, como: dissensão, carnalidade, egoísmo, desordem e indecência. O partidarismo na igreja de Corinto decorria da falta de amadurecimento do fruto do Espírito (1 Co 11.18; 1.10-13; 3.4-6). O termo “dissensões” (1 Co 1.10; 11.17) descreve a destruição da unidade cristã por meio da carnalidade. Em vez de gratidão a Deus, para promover a comunhão e “guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Ef 4.3), os coríntios se reuniam para o culto com espírito faccioso.

9. Quanto à importância. Em Corinto, havia muita carnalidade porque os crentes daquela igreja não priorizavam o fruto do Espírito (1 Co 3.1-3). Havia membros daquela igreja controlados pelo Espírito Santo (1 Co 1.4-9; Rm 8.14), mas muitos eram carnais (1 Co 13.1). Carnal é o crente cuja vida não é regida pelo Espírito (Rm 8.5-8); que tem muita dificuldade de entender os assuntos espirituais (1 Co 2.14); que vive em contendas, etc. Por não cultivarem o fruto do Espírito, os coríntios eram egoístas (1 Co 11.21).

Na liturgia da igreja primitiva era comum a Ceia do Senhor ser precedida por um evento festivo denominado agápe (e não ágape) ou “festa do amor” (2 Pe 2.13; Jd v.12). No entanto, alguns crentes, em vez de fortalecerem o amor e a unidade cristã antes da Ceia do Senhor, embriagavam-se. Segundo a Bíblia, todos os crentes (batizados com o Espírito, é evidente) podem, no culto, falar em línguas ou profetizar (1 Co 14.5ss). Mas ela também nos ensina a exercer esses dons com sabedoria, ordem e decência (1 Co 14.26-33,37-40), a fim de que: o nome do Senhor seja glorificado (1 Co 14.25); o incrédulo convencido de seus pecados (1 Co 14.22-25); e a igreja edificada (1 Co 14.26).

É imprescindível o casamento entre o fruto do Espírito e os dons espirituais. Afinal, o espírito do profeta deve estar sujeito ao profeta. Em outras palavras, o crente controlado pelo Espírito é usado por Deus, mas tem equilíbrio, domínio próprio e discernimento. O fruto do Espírito amadurecido na vida do crente impede-o de abraçar aberrações pseudopentecostais como “cai-cai”, “unção do riso”, etc.

Ciro Sanches Zibordi

domingo, 13 de abril de 2014

Os dons espirituais à luz das Escrituras (1)

As próximas quatro lições da revista Lições Bíblicas, da CPAD — adotadas principalmente pelas Assembleias de Deus em suas Escolas Dominicais —, abordarão os dons do Espírito Santo, começando com a lição: O Propósito dos Dons Espirituais. Apresento aqui a primeira parte da minha modesta contribuição sobre o assunto. A segunda parte desta abordagem será publicada ainda no início desta semana.

Haja vista a alegação dos críticos das doutrinas paracletológicas de que a expressão “dons espirituais” não consta da Bíblia, iniciarei esta série fazendo um esclarecimento. 
De fato, o termo “dons espirituais” não aparece em 1 Coríntios 12.1 e 14.1,12. Mas o termo original pneumatikon (literalmente, “espiritualidades” ou “coisas espirituais”) pode ser perfeitamente traduzido por “dons espirituais”, uma vez que esta tradução é abonada pelo contexto imediato: “há diversidade de dons” (1 Co 12.4); “dons de curar” (vv.9,28); “dom de curar” (v.30); “procurai com zelo os melhores dons” (v.31).

“Dons”, em 1 Coríntios 12.31, é charisma, mas em 1 Coríntios 14.1 é pneumatikon. Isso confirma que os termos são perfeitamente intercambiáveis, à luz do contexto. Ambas as formas se referem aos dons espirituais. 
Estes fazem parte das ministrações do Espírito Santo na igreja e manifestam a glória divina.

Os dons espirituais edificam os crentes e atraem os pecadores. São capacidades, dotações sobrenaturais concedidas pelo Espírito Santo, com o propósito principal de edificar a igreja (1 Co 14.3,4,5,12,26; Ef 4.11-13). Através deles, o Senhor revela poder e sabedoria aos seus servos.


Há distinção entre os dons espirituais mencionados em 1 Coríntios 12.6-11 e o batismo com o Espírito Santo, também chamado de dom do Espírito (At 2.38; 10.45). Este é um revestimento de poder outorgado pelo Espírito Santo, enquanto os primeiros são as capacidades sobrenaturais decorrentes do tal batismo. Nesse caso, quem já fala em línguas, como evidência do aludido revestimento, deve desejar e buscar outros dons: “procurai com zelo os dons espirituais” (1 Co 14.1); “como desejai dons espirituais, procurai sobejar neles” (v.12).


Também há distinção entre os dons espirituais como
manifestações esporádicas (1 Co 12.6-11) e como ministérios (1 Co 12.28). Os primeiros estão à disposição de todos os que buscam a Deus (At 2.39; Rm 11.29). Já os dons ministeriais são residentes nos servos do Senhor e dependem, evidentemente, da chamada soberana de Deus (Mc 3.13).

À luz da Palavra de Deus, todo crente fiel, batizado com o Espírito Santo, pode ser usado com o dom de profecia (1 Co 14.1). Mas nem todo crente, mesmo que batizado com o Espírito, pode ser um pastor, por exemplo, visto que este dom não é uma manifestação momentânea, esporádica, e sim um ministério outorgado soberanamente por Deus (Ef 4.11; Hb 5.4). Os dons como ministérios serão abordados nas presentes Lições Bíblicas da CPAD a partir da lição 6.

D
e modo geral, todos os dons são dados à igreja para o que for útil (1 Co 12.7; 14.28)E, por isso mesmo, não devemos ignorá-los ou desprezá-los (1 Co 12.1; 1 Ts 5.19,20; At 19.1-7). É o Senhor quem nos concede essas dádivas, “segundo a graça” (Rm 12.6). E, como essas dotações são, primacialmente, para a edificação do povo de Deus (1 Co 14.26), não devem ser mal utilizadas, sem decência e ordem, no culto genuinamente pentecostal (1 Co 14.37-40).

Ciro Sanches Zibordi

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Como reagir quando um amigo se torna inimigo

Temos dois tipos de inimigos: os invisíveis e os visíveis. Os primeiros são as hostes do mal, às quais devemos nos opor (Ef 6.10-18). Os outros são pessoas que nos odeiam ou nos traem por algum motivo. E estas, por mais contraditório que isso possa parecer, devemos amar (Mt 5.44).

Se quisermos andar como Jesus andou (1 Jo 2.6), não devemos nos fazer inimigos de ninguém, mesmo dos falsos ou ex-amigos que nos traem. Afinal, segundo a Bíblia, os nossos reais inimigos são os invisíveis: principados, potestades, hostes espirituais da maldade, príncipes das trevas deste século, e não as pessoas (Ef 6.10-12).

Lamentavelmente, há cristãos (cristãos?) elegendo, equivocadamente, seus vizinhos, colegas de trabalhos e até irmãos como inimigos. E alegam ter motivos “nobres” para alimentarem sentimento de vingança e se regozijarem com o aparente fracasso dos tais. Que tipo de vida cristã é essa? Obadias profetizou numa época em que a cidade de Jerusalém estava sob o ataque violento da Babilônia. E os vizinhos de Jerusalém, os edomitas, estavam torcendo para que os exércitos inimigos os matassem e os destruíssem, como lemos em Salmos 137.7: “Lembra-te, SENHOR, dos filhos de Edom no dia de Jerusalém, porque diziam: Arrasai-a, arrasai-a, até aos seus alicerces”.

As seguintes palavras de escárnio e desprezo, constantes de Obadias v.12, foram pronunciadas por parentes consanguíneos dos judeus: “Mas tu não devias olhar para o dia de teu irmão, no dia do seu desterro; nem alegrar-te sobre os filhos de Judá, no dia da sua ruína; nem alargar a tua boca, no dia da angústia”. Descendentes de Esaú, irmão de Jacó, os edomitas foram condenados por Obadias em razão de se regozijarem com o sofrimento dos judeus. Conclusão: os filhos de Edom, que pensavam estar comemorando uma vitória com sabor de mel, experimentaram, na verdade, uma derrota com sabor de fel: “Ah! Filha de Babilônia, que vais ser assolada! Feliz aquele que te retribuir consoante nos fizeste a nós! Feliz aquele que pegar em teus filhos e der com eles nas pedras!” (Sl 137.8,9).

Se alguém que nos tem traído ou prejudicado, de alguma maneira, está sofrendo ou vier a sofrer, não devemos, como servos do Senhor, ter o prazer da vingança. As Escrituras nos ensinam: “Quando cair o teu inimigo, não te alegres, e não se regozije o teu coração quando ele tropeçar” (Pv 24.17). Em vez de zombarmos do suposto fracasso de alguém, devemos manter uma atitude de compaixão e perdão, pois “Horrenda coisa é cair na mão do Deus vivo” (Hb 10.31). O que estão buscando os crentes que cantam “Tem sabor de mel, tem sabor de mel” ao verem sofrendo o seu irmão (que eles consideram inimigo)?

Por outro lado, é impossível não ter inimigos. O Senhor Jesus, o Homem perfeito, também os tinha, e a maioria deles o odiava por inveja. O Mestre nunca foi inimigo de ninguém, a ponto de chamar até o traidor Judas de amigo (Mt 26.50)! Ele não impediu que o Iscariotes se fizesse seu inimigo. Mas, paradoxalmente, nunca desejou ser seu inimigo, objetivamente.

Judas é o mais emblemático exemplo bíblico de traição, mas não é o único. A traição de Demas também foi bastante sentida pelo apóstolo Paulo (2 Tm 4.10). As Escrituras e a escola da vida nos ensinam que, em muitos casos, os traidores se travestem de “melhores amigos” até conseguirem o que desejam. O caso de Judas, em específico, mostra que o falso amigo é ingrato e prioriza o dinheiro, em detrimento da amizade. Entretanto, não nos cansemos de fazer o bem, mesmo correndo o risco de estarmos ajudando inimigos que se fingem de amigos.

Ciro Sanches Zibordi

#ProntoFalei — quer gostem, quer não (5)

Não confunda pregador bem-humorado com pregador humorista. O primeiro vale-se eventualmente de fatos anedóticos, mas usa esse recurso com equilíbrio e moderação, com o objetivo de fazer as pessoas pensarem. Ele não torce textos sagrados nem faz aplicações esdrúxulas e profanas. Já o segundo, muito diferente do primeiro, emprega o estilo stand up e liga uma piada a outra, numa sequência que mantém as pessoas constantemente animadas e esperando a próxima piada.

Certa irmã, alhures, não gostou das minhas críticas à pregação (pregação) zombeteira e profanadora estilo stand up e sugeriu que eu deveria procurar um famoso pregador e falar com ele pessoalmente. Ela não foi a primeira a me dar essa sugestão. Várias pessoas já me disseram que eu deveria dizer o que penso diretamente aos astros gospel e aos animadores de auditório. Bem, por que, então, Jesus não procurou cada fariseu ou falso profeta pessoalmente? Por que o apóstolo Paulo não procurou cada falso apóstolo pessoalmente? Estou imitando Paulo, imitador de Jesus Cristo, os quais atacaram o erro de maneira contundente, sem a necessidade, em regra geral, de falar com cada um que torce as Sagradas Escrituras (Mt 23; 7.15-23; 2 Co 11).

Há pregadores eloquentes, engraçadíssimos, aparentemente sábios, com presença de palco e tidos como santos. E que, por causa disso, têm muitos seguidores. Contudo, assim como o Diabo — que foi o primeiro a arrastar multidão (a terça parte dos anjos) —, são soberbos, rebelam-se contra Deus, citam textos bíblicos fora de contexto, torcendo as Escrituras, etc. Ah, e quando alguém verbera contra seus erros, eles e seus agentes ficam furiosos! Bem-aventurados são os pregadores que imitam a Jesus Cristo (1 Co 11.1) e andam como Ele andou (At 10.38; 1 Jo 2.6).

Portanto, não confunda contador de piadas para casais com palestrante usado por Deus, de fato, para instruir casais. O primeiro — simpatizante de humoristas que zombam da fé cristã, como certo integrante do Porta dos Fundos —, diverte multidões fazendo aplicações esdrúxulas de passagens sagradas. O segundo — imitador de Jesus Cristo —, embora fale para grupos menores, ensina com seriedade e temor de Deus o que está escrito nas Escrituras.

Tenho feito críticas relativas à política e principalmente verberado contra as heresias prevalecentes no meio evangélico. Mas, por favor, não me convidem para participar de weblinchamentos e "assassinar" reputações. O leitor viu o que alguns cristãos (cristãos?) estão fazendo com uma professora que zombou de um advogado num aeroporto? Ela errou, sim, mas por que cometeríamos um erro maior do que o dela, ao fazer como muitos, que não satisfeitos em criticar a conduta da professora, zombam dela de modo desproporcional e a ridicularizam, mesmo depois de ela ter pedido desculpas? Cristão que se preza é misericordioso e não participa de weblinchamentos. Os webintolerantes de plantão deveriam meditar sobre a conduta de Jesus em João 4 e 8.

Ciro Sanches Zibordi

domingo, 16 de fevereiro de 2014

“Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”

Desde que o modelo “igreja em células” começou a encantar alguns líderes das Assembleias de Deus, no início dos anos de 2000, venho pesquisando sobre o assunto. E, desde 2006, tenho feito uma pesquisa mais criteriosa, a qual envolveu, inclusive, a minha permanência por uma semana em uma cidade cuja Assembleia de Deus “mergulhou” na “visão” do G12, do colombiano Cesar Castellanos. Ali, conversei com irmãos, observei seu comportamento e adquiri manuais usados para treinamento de líderes de células.

Uma das aberrações contidas no “pacote herético” da “visão celular” — que não se restringe a G12 — é o “perdoar a Deus”. Essa heresia tem sido camuflada depois que apologistas assembleianos verberaram contra ela, mas ainda subsiste no movimento em apreço, mesclada com a sã doutrina. E aqui está o grande perigo! O mal misturado com o bem é muito pior que o mal declarado. A doutrina falsificada, que surge “entre nós” (At 20.28-31; 2 Pe 2.1,2), é muito mais nociva que a doutrina falsa, que vem de fora.

Há poucos dias, ouvi uma “pastora” ligada ao modelo celular pregando a respeito do perdão. O primeiro tópico da sua mensagem era “perdoe a Deus”. E, ao discorrer sobre a sua conversão, ela afirmou que, apesar de amar Jesus e ter um bom relacionamento com Ele, só se realizou quando perdoou a Deus! Apesar de ser cristã, ela culpava o Criador por todos os infortúnios que experimentara: “Eu criei uma afinidade com Jesus, mas ainda tinha um probleminha com Deus” — afirmou.

Nota-se que tal senhora, ainda que tenha boas intenções, desconhece o ABC da doutrina bíblica, o que, aliás, é uma característica de pessoas que abraçam modelos de crescimento prioritariamente numérico. Elas aceitam com facilidade, sem questionar — ao contrário dos cristãos de Bereia (At 17.10,11) —, ensinamentos falsos, como a “cobertura espiritual”, a crença na salvação de cidades mediante “decreto”, a falsa “cura interior”, a intromissão na vida privada das pessoas, torcendo o “Confessai as vossas culpas uns aos outros” da Bíblia (cf. Tg 5.16), etc.

Voltando à pregação da “pastora” sobre o “perdoar a Deus”, quero dizer duas coisas. Primeira: se ela culpava a Deus, em vez de ela ter “liberado perdão” a Ele, deveria lhe pedir perdão por sua ignorância. Afinal, o Senhor nada tinha a ver com a mágoa que ela nutria em seu coração. Segundo: como ela podia ter um relacionamento com o Senhor Jesus e, ao mesmo tempo, continuar magoada com Deus?

Ora, Jesus é Deus! E Deus é um só! Trindade não significa que existem três Deuses. Não se trata de triteísmo. Deus é triuno, formado por três Pessoas (tripessoalidade). Ou seja, é impossível amar o Deus Filho, ter um relacionamento de comunhão com Ele — o qual se dá mediante o Deus Espírito Santo, que habita no coração do salvo (Rm 8.16) — e, ao mesmo tempo, estar magoada com Deus Pai.

Muitos líderes de células são treinados e incentivados exaustivamente a “lançar a visão”. A ênfase das reuniões de liderança — ao contrário do que acontece nos tradicionais e “ultrapassados” cultos de doutrina, escolas bíblicas anuais e Escola Bíblia Dominical — não é a sã doutrina, e sim as estratégias de crescimento. E o resultado disso qual é? O número de pessoas alcançadas pela “visão” é impressionante, mas uma boa parte desses “discípulos” e de seus líderes sequer sabe o que é Trindade, à semelhança da mencionada “pastora”, que “amava” Jesus e, ao mesmo tempo, estava magoada com Deus...

Sim, receio que muitos líderes do modelo em apreço sequer conhecem as doutrinas fundamentais da Palavra de Deus (como a Trindade) ou sabem que Jesus é Deus. E, por isso mesmo, induzem incautos a acreditarem que, para se sentirem salvos de verdade, precisam participar de “encontros tremendos” a fim “liberarem perdão” a todos, inclusive a Deus. Não é estranho — e lamentável — que haja pastores de igrejas históricas, tradicionais, abraçando de modo festivo modelos celulares como G12, M12 e MDA?!

Minha oração, nesse caso, é a mesma do Senhor Jesus: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23.34).

Ciro Sanches Zibordi

sábado, 15 de fevereiro de 2014

G12, M12, MDA e a “quebra de paradigmas”


Muitas igrejas — inclusive, algumas Assembleias de Deus — têm adotado, nos últimos anos, o modelo da “visão celular”, também conhecido como G12, M12, MDA (Modelo de Discipulado Apostólico), etc. Tal modelo vem sendo apresentado como o mais eficaz meio de “fazer discípulos”. E os seus defensores, que se consideram imitadores da igreja primitiva, afirmam que sua estratégia de discipulado é uma revolução, uma “quebra de paradigmas” e, ao mesmo tempo, um retorno aos princípios da igreja de Atos dos Apóstolos. Não se trata, pois, de mais um programa. A “visão celular” é, modéstia à parte, “o programa” da igreja.

Desde 2006 pesquiso sobre o modelo em apreço e tenho ouvido alguns líderes de igrejas em células, especialmente os que trabalham com a juventude, afirmarem que não seguem padrões éticos, dogmáticos, eclesiásticos de pessoas maduras na fé, experientes ou tradicionalmente respeitáveis. Preferem valorizar as “ministrações específicas” em pré-encontros, encontros, pós-encontros, encontros de líderes, etc. Ninguém está autorizado a descrever o que acontece nessas reuniões secretas. Mas todos concordam: “É tremendo”.

As igrejas em células, em geral, têm os seus próprios cursos e conteúdos pedagógicos. Não investem na Escola Dominical; consideram-na ultrapassada, uma instituição falida. Dizem, sem nenhuma cerimônia, que as igrejas tradicionais ou conservadoras seguem padrões arcaicos e “comem pão amanhecido, seco e duro”. Os adeptos da “visão” desprezam, reprovam, a liturgia tradicional das igrejas que não seguem o modelo celular.

Na prática, os líderes que dizem estar “quebrando paradigmas” estão oferecendo aos crentes vários atrativos do mundo, dentro de um contexto pretensamente evangélico. Mediante a estratégia da “contextualização”, tudo é feito para agradar as pessoas, uma vez que o objetivo primário da “visão” é o crescimento numérico, e não a formação de crentes segundo a Palavra de Deus. Prevalecem nas igrejas em células — às vezes, de maneira camuflada — doutrinas triunfalistas, como a Confissão Positiva, a Maldição Hereditária e a Teologia da Prosperidade.

Tudo gira em torno das células, reuniões realizadas em casas de pessoas favoráveis à “visão”. Há cultos nos templos, mas nenhuma reunião é mais importante que as células, definidas como “a essência da vida da igreja”. Nessas reuniões, ocorre a chamada “oração profética”, recheada com palavras de ordem ao Diabo: “decretamos”, “ordenamos”, “quebramos”, “maniatamos”, etc. Há também espaço para manifestações estranhas, como o “cair no poder” — até as crianças caem.

A liturgia das igrejas em células é baseada no princípio “Pregue o Evangelho da maneira que as pessoas querem ouvi-lo, e não da forma que precisam ouvi-lo”. A ordem é não se prender a regras ou princípios. Empregam-se, nos chamados cultos: danças, coreografias e apresentações teatrais, principalmente como atrativos para a juventude. Tudo começa com um “louvor de guerra”, que dura uns vinte minutos. A oferta é um dos principais momentos e, por isso, merece uns dez minutos. Depois disso, há geralmente uma “oração de guerra” — dez minutos — e uma apresentação teatral de uns quinze minutos. Em seguida, uns 25 minutos de mais apresentação musical... Quanto tempo para a pregação? Em média, quinze minutos!

Segundo os defensores da “visão”, o que um sermão levaria 45 minutos ou uma hora para fazer, consegue-se com uma pequena apresentação musical “ungida”. Por que, então, Jesus e Paulo pregaram tanto, se isso não é tão importante? Por que dois terços do ministério terreno do Senhor foram destinados à pregação e ao ensino da Palavra de Deus? Nada deve substituir a explanação das Escrituras (Rm 10.17; Sl 119.130).

Como a exposição tradicional das Escrituras é considerada longa, cansativa e formalista, os pregadores da “visão” têm linguagem própria e atualizada para cada público em particular. Empregam gírias, expressões em inglês e regionalismos; tudo para agradar o auditório. Adaptam as passagens bíblicas às necessidades comuns do homem de hoje, bem como à realidade existencial da juventude. E as pregações, além de sucintas, costumam ser acompanhadas de peças ou dramatizações.

Nas reuniões da “visão”, os participantes batem os pés e gesticulam à vontade, sem restrições, além de marcharem. A ênfase recai sobre as músicas, as danças, as coreografias, etc. Não há lugar para hinários tradicionais, como Harpa Cristã, Cantor Cristão, etc. Dizem que cantar hinos ultrapassados é idolatria. Tais hinos, segundo eles, parecem ter sido compostos para um funeral.

Há, ainda, nesses “cultos” dirigidos por líderes que “quebram paradigmas”: aplausos, brados, pulos de alegria, faixas, cartazes, balões, bandeirinhas, lenços... As palavras de ordem são: exagerar e extrapolar. “Sentiu vontade de fazer? Faça.” — dizem. — “Se parecer exagero, execute! O Senhor não está interessado se o adoramos de ponta-cabeça, sentados, em pé, deitados, chorando, sorrindo, cantando, falando, gemendo, gritando e até gesticulando o corpo”.

Nas igrejas em células, geralmente, os aspirantes a pregador recebem instruções como: “seja bem-humorado; use termos joviais, expressões em inglês e termos regionais; faça brincadeirinhas; pregue com emoção; não seja um chato”. Os pregadores têm de ser, obrigatoriamente, animadores de auditório. Um influente líder da juventude afirmou: “Se você quer pregar sem se contextualizar, esqueça! Estamos cansados de tanta cerimônia, de tanta opressão, de tanta mesmice”.

Os pregadores da santificação não são bem-vindos. “As pessoas não vão aos cultos para serem repreendidas, mas para buscar soluções para problemas, conflitos, receber alívio para seus sofrimentos; enfim, para satisfazer as suas necessidades.” — dizem os defensores desse evangelho antropocêntrico. À luz das Escrituras, o compromisso do pregador é com o Senhor. Quando Ele mandou Ezequiel profetizar, disse-lhe que o auditório não o ouviria, pois era “casa rebelde” (Ez 2.1-4). O homem de Deus deve pregar, quer ouçam, quer deixem de ouvir, porque o seu compromisso é com Deus (v. 5). Jesus não elogiou ou agradou Nicodemos, mas lhe disse, com franqueza, que era necessário nascer de novo (Jo 3.1-5).

Ademais, a “visão celular” valoriza as estratégias de marketing. Os líderes falam muito aos seus liderados sobre atacado e varejo; o marketing pessoal também é fundamental. “Empreender é como espalhar logotipos. É deixar a marca pessoal em tudo que se realiza. O anonimato, a modéstia são para quem não tem o que mostrar ou fazer” — afirmam. Deus, entretanto, que não dá a sua glória a outrem (Is 42.8), “atenta para o humilde; mas ao soberbo conhece-o de longe” (Sl 138.6). Daí a humildade ser uma característica marcante na vida dos verdadeiros mensageiros do Senhor (Mt 11.28-30; Jo 3.30; Gl 2.20).

Ciro Sanches Zibordi

Depoimento de ex-adepto do MDA

Um ex-adepto do MDA (Modelo de Discipulado Apostólico) escreveu o seguinte no espaço de comentários, neste blog: “Pastor Ciro, eu era diacóno de uma Assembleia de Deus, igreja muito abençoada e que estava em crescimento. Mas o nosso pastor nos convenceu a adotar o MDA, dizendo que ele era muito diferente de G12/M12, e começamos a implantá-lo”.

O irmão, que não quis se identificar, prossegue: “A primeira coisa que fizemos foi acabar com a Escola Dominical, porque os estudos seriam nas células. O louvor da igreja virou show, tiramos os hinos da Harpa Cristã e colocamos luzes no altar. Fui líder de várias células e cada vez mais me impressionava o desaparecimento da mensagem bíblica, que antes tínhamos”.

E ele finaliza: “Os estudos das células eram fraquíssimos; só se falava em multiplicação, em obediência cega aos líderes e da importância de participar dos encontros ‘tremendos’. As reuniões com o pastor então eram só cobranças de crescimento. Cansei e pedi para sair. Foi um alívio tão grande em voltar a servir a Deus sem aquelas cargas, que fui renovado espiritualmente”.

Observação: publiquei um depoimento anônimo porque concordo inteiramente com o que foi dito pelo irmão. Seu depoimento só comprova o que já venho escrevendo desde 2006 sobre o G12 e agora sobre o MDA.

Ciro Sanches Zibordi

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O MDA e a “cobertura espiritual”

Há muita gente irritada comigo, dizendo que o G12 e o M12 são muito diferentes do MDA (Modelo de Discipulado Apostólico). A despeito de eu admitir que existem diferenças entre esses modelos, valho-me do essencialismo — uma escola filosófica que defende a ideia da prevalência da essência de algo mesmo em contextos diferentes — para afirmar que o MDA foi adaptado ao Brasil, tem a “cara do Brasil”, mas mantém a essência do G12, um modelo que, como todos sabem, tem propagado muitas heresias. Neste artigo apresentarei mais uma doutrina prevalecente nos três modelos: a “cobertura espiritual”.

Como já afirmei, em outro texto, cada adepto do MDA precisa de um “discipulador”, a quem deve prestar contas. E entre ambos deve haver uma relação próxima, em que o “discipulador” tem autoridade sobre seu discípulo, podendo se intrometer em sua vida pessoal, em seus negócios, em sua vida financeira. Em troca de quê? No MDA — e também no G12 e no M12 — prevalece a ideia de que uma pessoa que está em uma determinada escala hierárquica “protege” quem está abaixo dela.

Nos aludidos modelos tidos como apostólicos — que priorizam, ainda que não se admita, o crescimento numérico —, o “discipulador” é uma espécie de “anjo da guarda”. E muito mais que isso: trata-se de alguém que, de certa forma, faz o papel do Espírito Santo! Através da “cobertura” em apreço, ele oferece ao seu discípulo até “proteção espiritual”, que é comparada a um guarda-chuva. Ou seja, assim como este protege alguém de se molhar, a “cobertura espiritual” impede que o discípulo seja contaminado pelo mundo.

Recentemente, o líder maior do M12 escreveu o seguinte (no Instagram) a uma famosa discípula: “Cubro sua vida com autoridade e cuido do seu nome no mundo espiritual para que o adversário não ganhe vantagem na sua jornada”. Poderíamos chamar isso de endeusamento tácito do ser humano, pois o “patriarca” do MIR fala como se fosse Deus! Mas as pessoas que estão presas à “visão” não percebem esse tipo de heresia, haja vista terem sido convencidas de que estão fazendo uma “grande obra”, similar ou superior à da igreja de Atos dos Apóstolos. É por isso que o mal misturado com o bem é muito pior que o mal declarado!

Há pouco tempo, um adepto do MDA inseriu o seguinte comentário em meu blog: “Graças a Deus, eu participo do MDA [...], pois a Bíblia diz em Eclesiastes que é melhor serem dois, pois, se um cair, o outro levanta o seu companheiro. É muito bom estar debaixo da proteção espiritual de uma outra pessoa através de orações e intercessões”. Eu disse a ele que é preferível ficar com a cobertura do Espírito Santo, o qual “testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8.16).

Diante do exposto, existem diferenças significativas entre MDA, G12 e M12? Veja o que disse (no YouTube) um renomado conferencista oriundo da Assembleia de Deus a respeito da “cobertura espiritual”, após ter abraçado o MDA: “A quem você presta contas semanalmente? Quem o confronta? Quem pergunta a você: ‘Como vai a sua vida conjugal? Como vai a sua vida financeira?’ Quem é que lhe pergunta isso? Quem é que lhe confronta? Quem é o seu discipulador?”

A quem devemos prestar contas? A um “discipulador”? Não. A um “mentor”? Não. Prestamos contas a Deus! Inclusive, quando obedecemos aos nossos pastores, como ordenam as Escrituras (Hb 13.17), fazemos isso para agradar ao Senhor, pois é Ele quem nos dá pastores (Ef 4.11; Jr 3.15). Da mesma forma, em nosso trabalho material, fazemos tudo como se fosse para Deus (Ef 6.5-7). Por quê? Porque sabemos que a nossa cobertura espiritual — a autêntica — vem de Deus, e não dos homens. É a Ele que devemos prestar contas (Rm 14.12; Hb 4.13; 1 Pe 4.1-5).

Ciro Sanches Zibordi

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

MDA: qualquer semelhança com o G12 é mera coincidência?


Há pessoas bravas comigo porque afirmei que o MDA (Modelo de Discipulado Apostólico) é muito parecido com o G12 e o M12. Ora, que exagero há nessa afirmação? Se eu disser, por exemplo, que pit bull, doberman e pastor alemão são de raças caninas diferentes, mas todos são cães, estarei mentindo? E, se eu afirmar que Ford, Fiat e VolksWagen são marcas de carros que possuem motor, quatro rodas, bancos, etc., estarei faltando com a verdade? O mesmo se aplica a G12, M12 e MDA. São modelos de crescimento prioritariamente numérico que possuem a mesma essência.

Aliás, o próprio líder do MDA declarou: “Estudando os diferentes modelos de igreja em células, observando-os de perto e gastando tempo com os líderes envolvidos em sua prática, encontramos vários bons modelos, como o [...] ‘Modelo do Governo dos 12’, do pastor Cesar Castellanos, da Colômbia. Todos eles são bons e funcionáveis nos contextos em que são aplicados, para aqueles que seguem seus princípios. Contudo, acreditávamos que Deus tinha algo específico para nós, com as nossas cores e nossa cara, capaz de florescer nos mais diferentes ambientes em que houvesse receptividade para o seu desabrochar. Queríamos algo adaptável, prático, descomplicado” (HUBER, Abe. A importância da igreja local na visão do MDA, publicado por Josué Vasconcelos no site Scribd [este artigo também está disponível em vários outros sites]).

Observe que, a despeito de o G12 não ter a “cara do Brasil”, ele foi elogiado, chamado de bom modelo pelo líder do MDA. Nenhuma referência crítica foi feita ao “pacote herético” do gedozismo. Isso porque no MDA também existem os famosos “encontros” e a “escada do sucesso”, formada pelos degraus ganhar, consolidar, edificar, treinar e enviar.

Nos três modelos, ainda, são empregados “decretos” para obtenção de salvação, prosperidade, etc. Exemplos: “Eu decreto que o Paraná é do Senhor Jesus”, “Eu decreto a sua prosperidade”, “Vai decretando a salvação da sua família”. Portanto, qualquer semelhança não é mera coincidência...

Ciro Sanches Zibordi

O MDA e a supervalorização do “discipulado”

Algumas igrejas têm abraçando o MDA (Modelo de Discipulado Apostólico) como se fosse “o modelo”, acima de qualquer crítica, visto que este estaria, segundo pensam os seus proponentes, em conformidade total com os ensinamentos de Jesus e dos apóstolos. Entretanto, penso que, além das heresias que já mencionei em outros artigos — como o universalismo e o triunfalismo, expressos mediante “decretos” de salvação de indivíduos, famílias e cidades —, existe no aludido modelo uma supervalorização do “discipulado”, como se este fosse a solução para a salvação da humanidade.

Lembremo-nos de que a salvação é pela graça de Deus (Tt 2.11; Ef 2.8-10), e não pelos méritos de um “discipulador” ou pelo esforço de seus discípulos. Ademais, é o Espírito Santo quem convence o mundo do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8-11). E Ele age em harmonia com as Escrituras, a Palavra de Deus. Daí recair sobre os nossos ombros a obrigação de anunciar o Evangelho, quer ouçam, quer deixem de ouvir (Rm 10.14ss).

De acordo com o MDA, os pastores devem fazer reuniões individuais com seus líderes de células, “lançando a visão, imergindo-os na visão e pedindo-lhes para lançar a visão entre aqueles para quem eles ministram. Ao falar diante de grupos especiais da igreja, o pastor nunca conclui sem de alguma forma lançar a visão”. Isso é o que explica o livro Igreja em Ação: Desejos e Perspectivas, da MDA Publicações. Nota-se que há um grande interesse em que a “visão”, isto é, o modelo em apreço seja propagado, alcançando cada vez mais adeptos.

Os líderes do MDA são estimulados a “usar cada oportunidade para lançar a visão”. Ainda segundo o livro citado, o “pastor deve lançar a visão em conversas privadas. Ele deve trabalhar para que a visão seja a visão do povo. Aqui entra aquilo que chamamos de ‘senso de propriedade’. Quando ele acontece, as pessoas não acham que a visão é uma coisa que veio de fora ou que pertence apenas ao pastor. Elas vestem a camisa, sentem-se responsáveis pelo sucesso, trabalham para que ele aconteça, dão o seu melhor”.

Mas o Evangelho genuíno é cristocêntrico. Nada pode ser considerado mais importante do que pregar a Cristo, e este crucificado (1 Co 1.22,23). Quando uma igreja, um modelo de crescimento ou uma pessoa são apresentados — ainda que de modo indireto — como mais importantes do que Jesus, a mensagem deixa de ser cristocêntrica. Estimular líderes a compartilharem uma “visão”, ainda que se diga que ela traduz o conteúdo de Atos dos Apóstolos, é uma maneira de descentralizar Cristo do Evangelho.

Segundo o MDA, Jesus “discipulou” seus discípulos e ordenou que eles “discipulassem” outros. O Mestre, na verdade, enviou-nos a pregar o Evangelho (Mc 16.15) e ensinar as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo (Mt 28.19). É evidente que a tradução literal de “ensinai todas as nações” é “fazei discípulos de todos os povos”. Mas “fazer discípulos” não é formá-los segundo uma “visão” específica.

O Evangelho de Cristo é simples (2 Co 11.3). Fazer discípulos nada mais é que ensinar a sã doutrina, assim como fez Jesus, ao andar na terra, principalmente por meio do seu exemplo (Jo 13.15; At 1.1). E Ele só ensinou o que recebeu do Pai: “A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou” (Jo 7.16). A sua pregação era objetiva: “Arrependei-vos, porque é chegado o Reino dos céus” (Mt 3.2) ou “aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus” (Jo 3.3). E o que chama a atenção, no “discipulado” do Mestre, por assim dizer, é que Ele não formava “soldadinhos de chumbo”. Ele prezava a liberdade (Lc 9.23).

Em Romanos 10.14 está escrito: “Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?” (Rm 10.14). Embora o fazer discípulos seja uma tarefa importantíssima, outorgada a nós pelo Senhor Jesus, não vemos, nas Escrituras, Deus relacionando o fato de pessoas se desviarem, abandonarem o Evangelho ou apostatarem da fé à falta de “discipulado”. A missão da Igreja é propagar o Evangelho com verdade, e não responsabilizar-se pela manutenção da salvação dos que já receberam as boas-novas de salvação.

Deus exige de nós que anunciemos o seu Evangelho (Ez 33.8; 1 Co 9.16). Mas, uma vez que pregamos as boas-novas de salvação em Cristo Jesus e ensinamos a sã doutrina, não somos responsabilizados por Deus, caso alguns se desviem (2 Pe 2.1,2,20-22; 2 Tm 4.10). Ele não nos diz: “Fulano se desviou por falta de discipulado”. Jesus deixou claro, na explicação da parábola do semeador, que a responsabilidade maior pelo desvio do Evangelho é do próprio desviado (Mt 13.18-23).

Portanto, não cabe a nós criar modelos ou atrativos para “suavizar” o Evangelho e manter pessoas nas igrejas. Tampouco cabe a nós pregar o Evangelho da maneira que as pessoas desejam ouvi-lo, e sim do modo como elas precisam ouvi-lo, pois a porta e o caminho são estreitos (Mt 7.13,14).

Ciro Sanches Zibordi

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

O MDA e a falaciosa salvação por “decreto”

Em 3 de março de 2011, o pastor — alguns o chamam de apóstolo — Abe Huber, líder do MDA (Modelo de Discipulado Apostólico), declarou, no Congresso de Células da Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte-MG: “Aponta suas mãos em direção à sua casa, ao seu bairro, à sua rua. E fala: ‘Eu decreto salvação, perdão de pecados aos meus vizinhos’. Diga assim: ‘Belo Horizonte já é do Senhor Jesus’. [...] Vai decretando perdão de pecados sobre seus vizinhos, sobre seus parentes. [...] Eles já estão salvos. Eu vejo a maioria de Belo Horizonte, mais de 50% salva”.

À luz do Novo Testamento, o dom de profecia é dado pelo Espírito Santo à Igreja para edificação, exortação e consolação (1 Co 14.3); e para o que for útil (12.7). Por meio desse dom, o Senhor fala conosco como e quando quer (12.11; At 13.1-4), e não quando uma pessoa resolve, por conta própria, “decretar”, “determinar”, “declarar” ou mandar alguém fazer isso. Há alguns anos, inclusive, uma famosa profetisa “decretou”, em um megaevento, o fechamento de todos os bares e casas de shows do Rio de Janeiro! Ela disse que todos eles seriam transformados em igrejas em pouco tempo... Isso aconteceu?

Penso que todos os cristãos que se prezam deveriam rejeitar essa prática descabida e herética de “decretar” salvação, visto que à Igreja do Senhor cabe apenas a pregação do Evangelho. Ele é quem salva, segundo a sua graça. E sabemos que a prática de “decretar” salvação, além de não ter o abono da Palavra do Senhor, não muda em nada as circunstâncias. Deus pode mudar a situação de um país ou de um governo por meio de intercessão e influência do seu povo, e não mediante palavras de ordem (1 Tm 2.1-3; 2 Cr 7.14,15).

Muitos evangélicos, enganados, pensam que é assim que o Brasil vai mudar: mediante “decreto”. Mas, hoje, os crentes não incomodam nem influenciam ninguém! Boa parte da igreja evangélica brasileira está misturada com o mundo, envolvida em assuntos que não são de sua competência, e ainda prega um falso evangelho, “contextualizado”, que agrada as pessoas do mundo, atraindo-as para dentro dos templos, mas afastando-as da verdade.

É comum, em grandes eventos, ouvirmos crentes dizendo: “Eu estou aqui para decretar que esta cidade é do Senhor Jesus”. Como os pregadores do evangelho antropocêntrico — boa parte deles faz parte dos movimentos G12, M12 e MDA — acreditam que são “a boca de Deus” na terra e que as suas palavras abrem e fecham portas, “decretar” que uma cidade é do Senhor Jesus determinará que, de fato, ela será dEle. Mas, se não houver compromisso com o Evangelho, as coisas continuarão exatamente como estão! Não seria mais eficaz pregar o Evangelho com verdade?

Não só Belo Horizonte e o Brasil, e sim o planeta Terra e todo o Universo pertencem àquEle que criou todas as coisas (Sl 24.1; Hb 11.3). Entretanto, o mundo precisa ouvir as boas novas de salvação (Mc 16.15; Mt 28.19). Quantos pregadores e líderes já não “decretaram” que nosso país é do Senhor Jesus?! A despeito disso, a nossa nação continua cheia de violência, imoralidade, corrupção, injustiça...

Quantos já não “decretaram” que as cidades do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Belo Horizonte, de Vitória, de Curitiba, de Fortaleza, de Brasília, de Manaus, etc. pertencem a Cristo?! Mas elas continuam indo de mal a pior em matéria de segurança pública, educação, moralidade, civilidade... O Brasil precisa ser conquistado pelo Evangelho, e não politicamente. O Reino de Cristo é espiritual (Jo 18.36; Rm 14.17).

Precisamos abandonar essa ambição de “conquistar o Brasil na marra”, por meio de “decreto”, na base do grito! Devemos orar pela nossa nação e pregar a verdadeira mensagem do Evangelho! Mas, quando fizermos isso, de fato, estejamos preparados para as perseguições (1 Co 16.9). Se o mundo nos trata bem e nos vê com bons olhos, devemos ficar preocupados (Jo 15.18,19). Lembremo-nos das palavras do Senhor Jesus: “bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem, e perseguirem, e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa” (Mt 5.11).

Ciro Sanches Zibordi

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Não se confunda com a “visão” de MDA, G12 e M12

Não confunda o Evangelho do arrependimento (Lc 24.47) com o evangelho do entretenimento.

Não confunda o pregar a salvação em uma cidade (At 8.5) com o “decretar” a salvação de uma cidade.

Não confunda o desejo de Deus de salvar a humanidade (1 Tm 2.4; 2 Pe 3.9), mediante o conhecimento e a aceitação de seu plano salvífico (Jo 3.16), com a ambição de homens por números, a qual tem feito com que muitos, torcendo as Escrituras (2 Co 2.17), abracem o universalismo.

Não confunda o confessar as culpas uns aos outros (Tg 5.16) com o intrometer-se na vida privada uns dos outros.

Não confunda
igrejas neotestamentárias que funcionavam em casas (Cl 4.15; 1 Co 16.19) com grupos celulares formados por doze ou menos/mais pessoas.

Não confunda o anunciar o Evangelho e ensinar a sã doutrina pelas casas (At 20.20) com o anunciar a “visão” e ensinar o “modelo” pelas casas.

Não confunda o fazer discípulos de Jesus Cristo (Mt 28.19) — o qual ordenou: “Entrai pela porta estreita” (Mt 7.13) — com o fazer discípulos de um modelo de crescimento prioritariamente numérico.

Não confunda a obediência do apóstolo Paulo à visão celestial (At 26.19) com a obediência de alguns pastores desavisados à “visão” de “pastores”, “apóstolos” e “patriarcas”.

Não confunda o pedir e o buscar a face do Senhor (Mt 7.7,8; 2 Cr 7.13,14) com os heréticos “decretar” e “determinar”.

Não confunda a ação de Barnabé no sentido de aproximar Paulo dos apóstolos em Jerusalém (At 9.27) com uma espécie de discipulado conhecida como “fator Barnabé”. Afinal, o apóstolo Paulo fez questão de afirmar que o Evangelho por ele anunciado “não é segundo os homens. Porque não o recebi, nem aprendi de homem algum, mas pela revelação de Jesus Cristo” (Gl 1.11,12). Ele mesmo disse como foi o seu discipulado, por assim dizer: “quando aprouve a Deus, que desde o ventre de minha mãe me separou, e me chamou pela sua graça, revelar seu Filho em mim, para que o pregasse entre os gentios, não consultei a carne nem o sangue, nem tornei a Jerusalém, a ter com os que já antes de mim eram apóstolos, mas parti para a Arábia, e voltei outra vez a Damasco. Depois, passados três anos, fui a Jerusalém para ver a Pedro, e fiquei com ele quinze dias” (vv. 15-18).

Não confunda a simplicidade do Evangelho (2 Co 11.3) com a sofisticação de modelos de crescimento prioritariamente numérico, os quais não se coadunam com o ensinamento deixado pelo Senhor Jesus nos Evangelhos. Enfim, não se confunda.

Ciro Sanches Zibordi

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O “discípulo” do MDA e o discípulo de Cristo

Assisti, há pouco tempo, a um vídeo em que um respeitado pastor e conferencista oriundo da Assembleia de Deus afirma que sua igreja abraçou ao modelo MDA (Modelo de Discipulado Apostólico). Sugerindo que os pastores resistentes a tal modelo são soberbos e vaidosos, ele pergunta: “A quem você presta contas semanalmente? Quem o confronta? Quem pergunta a você: ‘Como vai a sua vida conjugal? Como vai a sua vida financeira?’ Quem é que lhe pergunta isso? Quem é que lhe confronta? Quem é o seu discipulador?”

Quando um cristão, mesmo que seja um pastor, não observa a Palavra de Deus, torna-se presa fácil de movimentos extremistas. E, no meio evangélico, tem crescido o número de desigrejados — que acreditam que não precisam de igreja, pastores, supervisores, etc., o que é um erro —, bem como o de adeptos de modelos celulares, como o G12, o M12 e o MDA. E estes são ensinados a estar debaixo da autoridade de um “discipulador”, um “mentor”, a quem devem prestar conta de tudo o que fazem ou deixam de fazer.

O Senhor Jesus, o Bom Pastor (Jo 10.11), nunca ensinou um tipo de vida cristã que priva seus discípulos da liberdade. Ele mesmo jamais obrigou alguém a segui-lo (Lc 9.23). É evidente que, para seguir a Cristo, é preciso trocar de jugo. Mas observe que o jugo de Jesus, ao contrário do jugo do pecado, é suave, e seu fardo é leve (Mt 11.28,29). Por isso, não vemos o Mestre dizendo aos seus discípulos: “Pedro, você agora é responsável por João. E este deve prestar contas de tudo o que faz a você. João, você é o mentor de Tiago. Tiago, você discipula Mateus”. E assim por diante.

Qual é a importância de uma igreja local? Ele serve para quê? Para aprendermos a sã doutrina, louvarmos a Deus e orarmos coletivamente. Essas três finalidades gerais podem ser vistas na igreja neotestamentária, sobretudo no livro de Atos dos Apóstolos. Mas a igreja local também é importante para nos congregarmos (Hb 11.25), vivermos em comunhão uns com os outros (1 Jo 1.7), confessarmos nossos pecados uns aos outros (Tg 5.15) — o que não significa revelar segredos e particularidades da privada a um “discipulador” —, alegrarmo-nos juntos no Senhor (Sl 122.1), etc.

Jesus sempre prezou a liberdade do ser humano. Vemos isso claramente na parábola do semeador (Mt 13). Este saiu a semear, e uma parte da semente caiu à beira do caminho, outra, entre os espinhos, outra, entre os pedregais, e outra, em boa terra. Apenas 1/4 — ou 25% — do que foi semeado prosperou (v. 8). Ou seja, digamos que dentre 400 pessoas que receberam a Palavra do Senhor, durante algum tempo, apenas 100 delas permaneceram firmes, obedientes à sã doutrina.

Mas veja que interessante. Jesus não disse que o semeador é o culpado pelos 3/4 que não produziram. Ele não afirmou, por assim dizer, que a maioria se desviou por falta de discipulado! Na verdade, o Mestre deixou claro que a nós, pregadores do Evangelho, cabe pregar e ensinar a verdade, e as pessoas que nos ouvem são responsáveis diante de Deus, uma vez que já receberam a “boa semente” (Mt 13.18-23). Segue-se que uma pessoa não permanece no Evangelho porque tem um bom “discipulador” ao seu lado! Ela permanece fiel porque recebeu de bom grado a Palavra e verdadeiramente ama Jesus Cristo!

Percebeu a clara diferença que existe entre o modelo das Escrituras e o MDA? O primeiro mostra que os verdadeiros discípulos são aqueles que obedecem à Palavra de Deus, a “boa semente”, e nela permanecem pela graça do Senhor. O segundo diz que, se alguma pessoa permanece na “visão”, é porque foi feito um excelente trabalho de discipulado “um a um”!

Ora, ninguém precisa ter um “discipulador” para se intrometer em sua vida pessoal, em seus negócios, em sua vida financeira! O mais importante para o cristão é aprender a Palavra de Deus e apreendê-la em seu coração, a fim de saber como se conduzir diante de Deus e dos homens. Afinal, o salvo tem a mente de Cristo (1 Co 2.14-16), e o Espírito Santo testifica com o seu espírito que ele é filho de Deus (Rm 8.16).

Ciro Sanches Zibordi

domingo, 9 de fevereiro de 2014

O evangelho-show do MDA, do M12 e do G12


Modelos como G12, M12 e MDA (Modelo de Discipulado Apostólico) priorizam números, números, números... Seus líderes “decretam” que São Paulo é de Jesus Cristo, que pelo menos 50% de Belo Horizonte já são do Senhor, etc. Mas Jesus não prioriza crescimento numérico! Ele mesmo — que disse “Entrai pela porta estreita”, asseverando que poucos são os que a encontram (Mt 7.13,14) — “dispensou”, ao apresentar à multidão que o seguia por interesse um “duro discurso” (Jo 6.60-66). E Ele estava disposto a “mandar embora”, por assim dizer, os doze apóstolos que restaram, caso não quisessem entrar pela “porta estreita”, mas Pedro disse: “para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna” (vv. 67-69). Embora Deus valorize o crescimento numérico, Ele prioriza o crescimento na graça e no conhecimento do Senhor Jesus.

Se modelos de crescimento como G12, M12 e MDA são tão bons e eficazes, gerando milhões e milhões de pessoas devidamente discipuladas, por que não vemos uma mudança real no comportamento da cristandade brasileira? Onde estão os resultados do tão festejado reavivamento do MDA, por exemplo? Se os cristãos “produzidos” em células e encontros são tão especiais e diferentes dos que frequentam igrejas históricas, tradicionais — que ainda utilizam o “ultrapassado” modelo EBD (Escola Bíblica Dominical) —, onde está o reflexo desse resultado “tremendo” na sociedade brasileira, que vai de mal a pior?

Onde está a igreja de Atos dos Apóstolos, que abalou o mundo por ser cheia do Espírito Santo e de sabedoria e, principalmente, por ter uma boa reputação perante a sociedade? Aquela, sim, crescia espiritual, numérica e geograficamente (At caps. 2-13). Sim, reconheço que as igrejas históricas, tradicionais, poderiam fazer muito mais pela evangelização do mundo e pelo discipulado. Mas, por que, em vez de combatermos a falta de engajamento, temos de adotar modelos de crescimento prioritariamente numérico?

A bem da verdade, o MDA, o M12 e o G12 não são idênticos. Mas esses modelos de crescimento prioritariamente numérico são muito semelhantes. Eles — que pregam um tipo de universalismo — acreditam que, à semelhança de um “rolo compressor”, vão conquistar e dominar o mundo. E, por isso, empregam declarações de fé, “decretos”, como “O Brasil é do Senhor Jesus”. Eles têm alcançado muita gente em razão de oferecerem um evangelho-show, que diz às pessoas o que elas desejam ouvir.

Sinceramente, prefiro o Evangelho da cruz! Prefiro a mensagem “antipática” de Jesus: “Arrependei-vos”. Prefiro o crescimento numérico lento e gradual, mas verdadeiro, ao crescimento rápido e “extraordinário” dos mencionados modelos. Prefiro entrar pela “porta estreita” e andar pelo “caminho apertado” que conduz à vida eterna. Respeito a opinião de todos os leitores, até mesmo dos mais exaltados. Mas não tenho medo de dizer: Deus reprova o evangelho-show! Por quê?

Porque o Evangelho deve ser comunicado, não da maneira que as pessoas desejam ouvi-lo, e sim da maneira que precisam ouvi-lo. O evangelho do entretenimento não produz verdadeiros discípulos de Jesus, como ordena a Palavra do Senhor, literalmente, em Mateus 28.19: “fazei discípulos de todos os povos”. O falso evangelho-show desvia as pessoas da verdade. Ele as distancia da Palavra de Deus e as aproxima do mundanismo. Ele integra, admito, e induz os jovens a dançarem, a balançarem o corpo, a se divertirem, a se alegrarem, a se exibirem, a serem “o povo mais feliz da terra”... Mas estes — ainda que não admitam — continuam vazios, pois o que dá prazer realmente é andar segundo a lei do Senhor (Sl 1.1,2).

Sim, Deus reprova o evangelho-show porque este oferece ao povo o que ele deseja, repito, assim como fez Arão (Êx 32.1-6). Mas esse show precisa acabar. Voltemos a cultuar ao Senhor Jesus em nossas igrejas! Com menos cantoria e mais louvor. Com menos triunfalismo e mais pregação cristocêntrica. Com menos sofisticação e mais simplicidade. Com menos performance gestual e mais quebrantamento do coração. Com menos descontração e mais arrependimento. 

Ciro Sanches Zibordi